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Tuesday, 27 November 2012

PARTE VII: A GUERRA DE MANUFHAI – 3ª fase (continuação)


PELO Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Os meses de Agosto, Setembro e Outubro de 1912 foram dramáticos para Dom Boaventura da Costa, para a família e para os seus combatentes. Pode-se dizer, foi um desastre geral para o povo assuwain de Manufahi. Derrotado e acossado pelas forças portuguesas e seus aliados (moradores e auxiliares timorenses) o povo de Manufahi tinha perdido tudo; casas, plantações, culturas, gado, etc.

O liurai Dom Boaventura estava escondido na floresta e nos pântanos de Betano. Da sua família, perdeu a mãe e os irmãos. Relata Jaime de Inso: “ Toda a família daquele famoso régulo foi decapitada no próprio solar, incluindo a mãe, cuja sorte ouvimos lastimar, porque se tinha mostrado  amiga dos portugueses” (Timor 1912, p. 198).

Entre os combatentes de Manufahi muitos foram mortos. Outros passaram a combater ao lado dos portugueses. A estes quando lhes foi perguntado porque não se rendiam, respondiam: “ e vós por que não vos rendeis ao nosso governador de Timor, Dom Boaventura?”(Nusá imi la rende ba ami nia Embot Dom Boaventura?).

Os dias 11 e 12 de Agosto de 1912 foram dias de chacina. Os moradores passavam horas a cortar as cabeças aos rebeldes. Tal foi a quantidade de cabeças cortadas que os moradores exclamavam: “Já doem os braços, senhor, já não pode cortar mais cabeças”. Calcula-se que nesses dias terão morrido mais de 1.700 timorenses. Só a 10ª Companhia dos moçambicanos registou no seu palmarés 628 mortos e 410 prisioneiros.

Entretanto, a 13 de Agosto de 1912, o governador Filomeno da Câmara nomeava o tenente Francisco Pedro Curado novo comandante de Same. Coube a este oficial português a missão de procurar e prender Dom Boaventura da Costa. A missão de ataque ao reduto do régulo de Manufahi vai demorar dois meses.

No dia 17 do mesmo mês, o governador regressa vitorioso a Díli. Regressam também os destacamentos de moradores e de auxiliares. A entrada na Praça de Díli foi de festa e de vitória: os moradores tocavam tambores e cornetas; exibiam bandeiras e cabeças de inimigos, umas  espetadas nas pontas de bambu, outras penduradas em cordas. O governador autorizou uma festa macabra. Além das danças tradicionais de tebe, dahur, e bidu, foi organizada a festa de cabeças. Fazia-se um círculo e dava-se pontapés às cabeças cortadas. Depois dos festejos, as companhias de moradores regressavam aos seus comandos levando os troféus da guerra: os presos (homens, mulheres e crianças) ficarão como escravos (atan); as cabeças dos inimigos mortos serão depositadas nos montículos lulic ou nas cavernas das florestas lulic da aldeia. Alguns vencedores levarão para as suas terras búfalos, cavalos cabritos e porcos.

Nos dias 23 e 24 de Outubro o tenente Curado acompanhado dos seus homens lança um ataque ao reduto de Pau Preto. Travou-se um renhido combate, pois Curado perde quatro homens. O liurai põe-se em fuga, mas muitos dos seus homens rendem-se. Finalmente, no dia 26 de Outubro de 1912, Dom Boaventura Souto Maior entrega-se às forças do tenente Francisco Curado.

Depois de ter sido preso, o régulo de Manufahi será levado para Díli. Sobre a prisão, levantaram várias hipóteses: Ataúro? Balibó? Batugadé? Aipelo? Com Dom Boaventura foram presos o “major” Mali-Coli de Leolima; Dom Vicente, irmão de Dom Boaventura. João primo do régulo, o régulo de Aituto, Nai Clara. O régulo de Alas caiu varado na planície de Aiassa.

As perdas humanas no final da terceira fase da guerra de Manufahi: do lado das forças governamentais: 205 mortos e 377 feridos; do lado dos “rebeldes”: 2.684 mortos e 8.144 feridos.
(continua no próximo número)


Porto, 23 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

PARTE VI: A GUERRA DE MANUFHAI – 3ª FASE


PELO Dom CARLOS FILIPE Ximenes BELO

Estávamos no mês de Julho de 1912. No dia 17, a 10 ª Companhia moçambicana chega a vila de Same, mas esta estava destruída. A companhia foi encarregada de ocupar a parte oriental da colina de Leo-Laco, num sítio chamado Bandeira. No dia 19 as forças governamentais lançam uma mina de 42 kg de pólvora que abre uma brecha na muralha de Riac. Em consequência dessa acção, dá-se o assalto às regiões ao sul de Riac. No dia 20 os rebeldes atacam Bandeira. Após renhidos combates, o destacamento do governo toma o lado norte de Rica. No dia 21 de Julho Riac rende-se sem reservas. Os rebeldes tiveram 59 mortos. Da população, 4.536 pessoas foram presas. Os prisioneiros tinham em seu poder 342 espingardas, 1.100 azagaias, 1.800 espadas e nenhuma pólvora. Na tomada de Riac, os portugueses tiveram 40 mortos e 90 feridos. Os portugueses efectuaram 628 disparos e gastaram 30.000 cartuchos. O cerco de Riac durou 41 dias.

E onde se encontrava o líder da revolta, Dom Boaventura da Costa? O valoroso régulo de Manufahi estava entrincheirado no alto de Lao-Laco rodeado dos seus asswain. Tendo conquistado Riac, o governador Filomeno da Câmara planeia o assalto ao monte Leo-Laco. Nos dias 28 e 29 de Julho, as forças governamentais ocupam cinco postos avançados de um lado e do outro da ribeira Aiassa. Travam-se os combates. No dia 1 de Agosto, a 10 ª Companhia moçambicana é rechaçada de uma aldeia, mas no dia 3 voltou a controlar essa povoação. No dia 5 de Agosto, Dom Boaventura e os seus guerreiros tentam uma sortida contra as linhas portuguesas. Mas no dia 6, os portugueses conseguem penetrar no reduto de defesa à volta de Leo-Laco. Num dos cumes da colina, são tomados os víveres e um canhão japonês. No dia 8, o acampamento de Dom Boaventura ainda não era tomado. As penetrações nesse reduto eram difíceis, pois rebeldes haviam fortificado trincheiras e ofereciam resistência. Os combates entre os sitiados e os atacantes prolongaram-se até o dia 10 de Agosto.

Vendo-se cercado pelo inimigo, Dom Boaventura envia ao governador novas propostas de rendição. Promete pagar uma indemnização de guerra e render-se com toda a sua gente se os portugueses abandonassem o cerco e se retirassem para Same. Mas Filomeno da Câmara recusa a proposta e matem firme o propósito de subir ao cume de Leo-Laco. Vendo recusada a proposta de rendição, Dom Boaventura manda os seus homens continuar a luta. Assim no dia 10 de Agosto, à noite, na zona leste de Leo-Laco, um grupo de rebeldes conseguiu forçar o bloqueio e obrigou a recuar a 10 Companhia, os moradores e os auxiliares. Deu-se então a fuga de muitos rebeldes para as florestas vizinhas. Alguns deles são caem mortos, mas a maioria conseguiu escapar-se. Na zona oeste, os rebeldes forçavam também o cerco e tentavam escapar-se. Infelizmente muitas mulheres e crianças foram feitas prisioneiras. Os combates prosseguem no dia 10 de Agosto à noite. O avanço dos portugueses para cume de Leo-Laco intensificava-se. Os rebeldes, não podendo resistir, procuravam brechas para se escaparem. Nessa noite um grupo de assuwain preferiu matar as mulheres e filhos e depois suicidando-se do que entregar-se aos invasores que certamente lhes cortariam a cabeça e levariam como troféu para suas aldeias mulheres, crianças e adolescentes. Na parte de sul de Leo-Laco, cadáveres de rebeldes jaziam pelos caminhos e no meio das ervas. Dom Boaventura e alguns dos seus guerreiros conseguiram atravessar as linhas portugueses e penetrar nas florestas do sul.
No dia 11 de Agosto de 1912, o régulo Dom Boaventura tinha-se refugiado na floresta de Pau Preto junto de Betano.

Porto, 19 de Janeiro de 2012.
Dom CARLOS FILIPE Ximenes BELO

Monday, 26 November 2012

PARTE V: A GUERRA DE MANUFAHI (VI)


Pelo Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Como dissemos nas crónicas anteriores que durante os meses de Fevereiro e Março do ano de 1912, estavam a decorrer as operações contra o reino de Manufahi.

O avanço das forças governamentais apoiadas por arraiais dos comandos militares ia tornando mais difícil a vida dos timorenses em rebelião. As áreas de Cablac ocupadas pelos “manufaistas” iam-se tornando mais estreitas. Dom Boaventura da Costa, a família e muito povo encontravam-se entrincheirados nas fortalezas de Riac e leo-Laco.

As consequências da guerra eram várias: aldeias abandonadas, casas incendiadas, roubo de gado; abandono de culturas (café, milho e arroz), doenças, fome, e morte. Tanto da parte dos rebeldes como doas forças governamentais havia muitos feridos e dezenas de mortos. Fizeram-se dezenas de prisões. Na Praça de Díli, em 1912, havia mais de 4 mil prisioneiros na cadeia.

Mas, não era só à volta de Cablac que decorriam as operações contra os rebeldes. Na região de Bobonaro as forças do governo realizaram vários “raids” contras as populações. Houve operações à volta de Bobonaro, Atabae, Atsabe, Hatolia e Cailaco. Essas operações tinham o objectivo de eliminar possíveis revoltosos e de impedir a sua passagem até Manufahi. Mesmo assim, os portugueses registaram entre as suas fileiras, 30 mortos e uma centena de feridos.

Sucedeu, então que em vários reinos, sobretudo, da parte ocidental, muitas pessoas começaram abandonaram as suas aldeias, procurando refúgio nos reinos vizinhos ou no território de Timor holandês.

Famílias inteiras de Atsabe, Leimean, Deribate Cailaco dirigiam-se para Memo e para a fronteira. O êxodo destas famílias ocorreu nos dias 9 e 10 de Maio de 1912. Foi nesta ocasião, que o régulo de Memo, Bere-Tali perpetrou o massacre contra os fugitivos, nas margens do rio Malibaca. Segundo o Relatório das Forças da Fronteira, o régulo e os seus homens mataram mais de 100 pessoas, entre as quais 6 chefes. Nos fins de Maio, na povoação de Sadi, no território holandês, havia 2.000 refugiados timorenses.

Conta-se que em Atsabe, as pessoas preferiram morrer de fome e de sede nos seus esconderijos a entregar-se às forças governamentais. Conta-se ainda que os timorenses fiéis ao governo, numa das suas campanhas pelas aldeias, cortaram mais de 300 cabeças aos seus inimigos.

O corte de cabeças era um acto de valentia. Morto o inimigo, a cabeça é decepada e levada para o acampamento. Os acampamentos das tropas em Maubisse estavam enfeitados com cabeças cortadas.

No mês de Abril de 1912, Dom Boaventura escreveu ao governador Filomeno da Câmara apresentando as condições da sua rendição. Mas o malea boot (embot) não fez caso do pedido e continuou a reforçar as suas posições no terreno.

No dia 29 desse mês chegavam a Díli mais reforços. Tinha atracado um navio português que levava a 9ª Companhia de soldados moçambicanos, (seis oficias, 14 sargentos e 233 soldados). Metade dessa companhia seria encaminhada para Suro, via Liquiçá, Hatolia e Atsabe.

Porto, 12 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo


Sunday, 25 November 2012

PARTE IV: A GUERRA DE MANFAHI – 2ª Fase – continuação


Pelo Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

 A segunda fase ou o segundo período da guerra durou cerca de quatro meses (Fevereiro a Junho).
Os “rebeldes” tinham atacado várias povoações com o intuito de travar o avanço das forças do governo. Nalgumas zonas por eles controladas haviam recolhido mantimentos, bens e gado no alto nas serras (fohon tutun).

O governador Filomeno da Câmara e os seus homens estavam decididos em avançar para Cablac combatendo os rebeldes no seu terreno. Mas devido à configuração do terreno e à existência de vários grupos de rebeldes espalhados pela região, foi preciso fazer primeiro o reconhecimento do terreno. As forças governamentais avançavam para Cablac em três frentes. Da zona Leste, com arrais comandados pelo capitão José Faure da Rosa; da zona oeste, os arraiais sob o comando do tenente António Valente de Almeida; da zona norte, o próprio governo e o seu quartel-general.

Nos dias 28 e 29 de Fevereiro e no dia 1 de Março de 1912, o reconhecimento do terreno foi efectuado pelo batalhão do Tenente Almeida e do padre Manuel Alves Ferreira, missionário de Maubara. Perto de Maubisse, travou-se o combate e uma bala inimiga tirou a vida ao padre Ferreira. O padre expirou às duas de madrugada do dia 2 de Março.
No dia 3, sai de Soibada, o destacamento do capitão Faure da Rosa ia exploras as regiões de Terás. Nesse destacamento ia como voluntário o padre Manuel Laranjeira, missionário de Soibada.

Entretanto na zona norte, o governador ordenava o reconhecimento das regiões de Manucate, Hatobessi, Maulau, Lequidoe e Turiscai.

No dia 7 de Março realizou-se a exploração das regiões de Manucate. Nesse tempo os rebeldes dominava as povoações de Tumau e Hatobessi. No dia 15, as forças governamentais fazem assalto ao monte de Tumau. Nesse monte os timorenses tinham levado para lá todos os seus bens, incluindo o gado: búfalos, cavalos e cabritos. Pela força das armas, os rebeldes foram obrigados a sair dos esconderijos deixando para trás muitos animais. Os moradores dos arraiais apoderaram-se de 112 búfalos e de alguns cavalos.
No dia 25 de Março, as tropas de capitão Faure da Rosa, depois de renhido combate, ocupava Fatu-Boi (Fatu Boe).[1] Nesta campanha as forças governamentais eram formadas por arrais de Samoro sob o comando de Liria Vidal Sarmento, e os arrais de Vemasse, Laleia, Cairui. Luna de Oliveira descreve assim Fatu-Boi, depois dos combates: “Fatu-Boi, posição naturalmente inexpugnável, sulcada em sucessivas linhas defensiva, biseladas na rocha, atravanca de arvoredo frondoso, era um cemitério ao ar livre. O cheiro pestilento, mal inumados empestava o ar. Cabeças dos mortos espreitavam á flor da terra, tal fora a pressa com que os enterraram” (Luna, III, p. 122). Depois dessa acção as forças tomaram sem dificuldade Dotic e Sarim[2]. O chefe do Suco Laca-Dala-Nai sucumbiu ao combate. A cabeça foi decepada e levada ao acampamento dos malae como troféu. Nesse período ocupou-se Fatuberliu. No mês de Abril de 1912, as regiões a leste de Same estavam submetidas (Alas, Bibiçuço).

Na zona oeste alguns reinos estavam em rebelião. O reino de Cailaco persistia na rebelião e tentava seduzir outros reinos, como o de Atabai, o régulo Bere-Talo. Contra Bere-Talo, o capitão Fonseca Cardoso, comandante militar de Batugadé organizou uma campanha que decorreu entre os dias 3 e 10 de Março. O destacamento comandado pelo sargento Humberto Maria Fernandes era composto por 35 moradores.

Na zona sul (Suro) o destacamento composto por 50 soldados, 2 voluntários e 107 moradores controlavam as regiões de circunvizinhas à vila não impedindo a incursão dos “manufahistas.”

Entre os dias 17 e 27 de Março Atabai era atacada pelas forças do Capitão Fonseca Cardoso. Nessa operação participaram 456 homens: soldados do esquadrão de cavalaria da fronteira, soldados moçambicanos e um pequeno arraial de moradores de Balibó. Os rebeldes de Cailaco não queriam render-se pois declaravam que preferiam morrer nas montanhas e nos rios do que serem portugueses.

Em Manufahi, Dom Boaventura da Costa Souto Maior sentia-se mais isolado pois não recebeu mais adesões de novos reinos. Os seus homens, além de continuarem em sentinela nas zonas fronteiriças, iam consolidando as fortificações de defesa em Riac e Leo-Laco.

Mas na segunda metade do mês de Março de 1912, o governo viu revoltar-se Dom João da Cruz Hornay, régulo de Ambeno. A revolta de Ambeno será o tema do capítulo a seguir.

Porto, 6 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo




[1] Fatu Boe, povoação pertencente ao suco de Fatu Cahi, Sub-Distrito de Fatuberliu.
[2] Sarim, povoação pertencente a Alas e fazia baliza com o rio (mota) Clere.

Saturday, 14 January 2012

A REVOLTA DE AMBENO (Continuação


Pelo  Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

A revolta de Ambeno iniciada pelo régulo Dom João da Cruz Ornai deu-se no dia 22 de Março e não no dia 25, como eu tinha escrito na crónica anterior. Recebia a notícia da revolta em Díli no dia 26 de Março de 1912, o governo decide mandar a canhoeira a Pátria a Oe-Cusse com o objectivo de dominar os revoltosos. Aprontou-se o navio que transportou uma força de 40 soldados moçambicanos e 3 sargentos sob o comando do tenente de infantaria Sérgio Morais e Castro e 31 moradores de Baucau, tendo à frente o alferes Afonso da Costa. Pelas 16.00 horas do dia 28 largava o navio para Pante Macassar. Em Batugadé, embarcaram o tenente Jorge Figueiredo de Barros, comandante militar de Oe-Cusse, o régulo Dom Hugo da Costa, alguns chineses e 25 moradores, todos fugitivos de Pante Macassar no dia dos ataques dos homens de Ambeno. (Na crónica anterior eu tinha dito que o padre António de Morais também tinha seguido para Batugadé, mas cometi um lapso, afinal ele estava em Oe-Cusse).

Tendo o navio a Pátria chegado em frente da vila, viram um beiro a dirigir-se para o navio conduzindo o missionário Padre António Januário de Morais e um timorense que relataram ao comandante do navio factos ali ocorridos.

Entretanto deu-se o desembarque das forças. Os portugueses ao aproximarem-se da terra, foram recebidos pelos “revoltosos” com haklalas e tiros. Pelas setes horas, a canhoeira abriu fogo com as peças de Hotchkiss e fuzilaria.

Da terra, os “ambenos” entre 500 a mil 1.000 homens, respondiam com tiros de espingarda Remington que tinham roubado no posto. Fez-se o desembarque das forças que foram ocupando posições em terra. Na troca de tiros ficaram feridos dois moçambicanos. Do navio fez-se o bombardeamento da povoação. Os moradores iam deitando fogo às casas. Nas matas que cercavam a povoação de Pante Macassar pululavam os “revoltosos”. A rainha de Oe-Cusse e algumas mulheres e crianças procuraram o abrigo no navio.

A “reconquista” de Pante Macassar durou dois dias. Nessa acção empregaram-se bombardeamentos com 10 granadas ordinárias e 10 granadas ordinárias, e 2.600 cartuchos de carabinas. Os portugueses reocuparam a casa do comando. Entretanto generalizou o incêndio pelas restantes casas de Oe-Cusse. Ao meio-dia do terceiro dia, o comandante, acompanhado de dois oficiais foi à terra iças bandeira verde-rubra.
E o que aconteceu a Dom João da Cruz Ornai? Vendo o destacamento de guerreiros ambenos derrotado e desfeito, o liurai tomou o caminho do exílio e foi viver com a sua família na povoação de Lelogama (então território holandês). Em Dezembro de 1912, o governador holandês, no seu périplo por alguns regulados de Timor holandês encontrou ali os irmãos da Cruz Ornay, “homens educados em Dili”. Seria dom João e o irmão? Ou seriam os filhos?

Todo o enclave de Oe-Cusse e Ambeno seria totalmente ocupado depois da guerra de Manufahi, facto que só aconteceu em 1913.

Dom João da Cruz Ornai era filho de Dom Pedro, rei de Tul-Ikan, e neto de Dom Bernardo. Teria nascido por volta de 1888. Em 1907 foi enviado a Soibada, onde fez a instrução primária no Colégio Nun’Álvares, então dirigido pelos padres Jesuítas. Diz-se que em 1908, ele casou com Bi Sani Taeki Meko.

Durante a guerra japonesa (1942-1945), Dom João da Cruz Ornai voltou a Oe-Cusse tentando ocupar o lugar de liurai. Mas as autoridades portugueses não viram bem essa iniciativa, e, relembrando a revolta de 1912, obrigaram-no a regressar a Kefamenanu (TTU) onde viria a falecer  em  1961. Teria 73 anos.

Porto, 11 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo


Friday, 6 January 2012

A GUERRA DE MANUFAHI


PRIMEIRA FASE DA GUERRA

Para a grande revolta de 1911 e 19112, o Régulo Dom Boaventura havia estabelecido contactos com vários reinos: Atabae, Atsabe, Cailaco, Deribate, Ermera, Matata, Punilala, Suai, Leimean, Bibuçuço, Alas, Turiscai, Lequidoe, Raimean, Suai, Cová, etc.

No mês de Janeiro de 1912, várias povoações revoltaram-se abertamente contra o governo. Fontes portuguesas falam de levantamentos em Manucate, Lequidoe, Hatobessi, Fatuboro, Babulo, Tumau, Babulo, Loto-Po, Alas, Leolima, Aituto. Os combatentes de Manufahi e seus aliados, exibiam a antiga bandeira azul branca (da Monarquia portuguesa), ao passo que as forças governamentais exibiam a nova bandeira, verde-rubra, adoptada pelo novo Regime republicano.

O governador Filomeno da Câmara prevendo um levantamento geral, toma a iniciativa de ocupar Aileu e Maubisse para travar o avanço dos rebeldes sobre a Praça de Díli.

O dia 5 de Janeiro de 1912 marcou o começo das operações contra os rebeldes Manufaistas. Nesse dia, o tenente António Joaquim de Almeida encontra-se em Suro para defender aquela povoação e rechaçar os ataques dos rebeldes de Manufahi. No dia 6, teve de regressar a Hatolia, porque tinha começado uma rebelião chefiada pelo antigo régulo D. António, que foi morto no local. Em meados de Janeiro, o tenente Almeida reúne um contingente formado por um oficial, seis sargentos, dois soldados europeus, 260 moradores e cinco voluntários europeus e auxiliares de Deribate, Maúbo, Maubara e Fatumasi. Nesse contingente incorporou-se o missionário de Maubara, o padre Manuel Ferreira.

No dia 12 daquele mês parte o primeiro contingente de forças governamentais para Aileu sob o comando próprio governador. No dia 17, os revoltosos pretendem atacar Aileu, mas denunciados pelo chefe do suco de Saboria, Brás, são rechaçados. No dia 19, registam-se combates entre “revoltosos” e moradores fiéis ao governo, nas balizas de Bibiçuço. Foi preciso mobilizar contingentes de Alas, Betano e Manufahi, para combater os rebeldes naquela zona. Desse combate em Bibiçuço, registaram quinze mortos do lado dos “revoltoso e 2 do lado do governo.

Para dominar Bibuçuço, o governo mobilizou 2.950 combatentes de Vemasse, Laclubar, Samoro, Laleia, Cairui, Ossú, Ossoroa e Venilale. Os arraiais governamentais eram comandados por um alferes e um sargento e marchavam ostentando a bandeira real portuguesa. 

A 31 de Janeiro libertam as zonas circundantes da Missão de Soibada. A 4 e 5 de Fevereiro esses arrais fizeram tal chacina, que segundo um cronista, o massacre dos rebeldes dava para encher um rio.

Por outro lado, na zona de Ermera, na povoação de Umboe, o comandante de Hatolia, António de Almeida Valente conseguiu dominar uma revolta que eclodiu naquela zona matando 66 rebeldes. Almeida Valente recebe ordens do governador para marchar com todas as suas forças sobre Aileu. Parte para Aileu a 29 de Janeiro mas antes disso, reforça a defesa de Ermera, Hatolia e Atsabe com guarnições que reuniam mais de 340 moradores.

Nos princípios do mês de Fevereiro de 1912, o governo reuniu em Aileu oito oficiais, 51 soldados da 1ª linha, 14 voluntários, 364 moradores e 2070 timorenses (irregulares). Provavelmente a 1 ou 2 de Fevereiro, as forças governamentais marcharam m sobre Lelai e no dia 3 fizeram escalada em Rai-Rema. Resultados Dos combates travados entre os “revoltosos e forças leais ao governo: Da parte dos timorenses revoltoso, registaram-se 360 mortos e 320 feridos, Da parte do governo, houve 24 mortos e 33 feridos.

Porto, 4 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo


 A GUERRA DE MANUFAHI – SEGUNDA FASE

Prevendo o avanço das forças governamentais e as movimentações dos arraiais de moradores da 2ª linha que iam chegando à região de Manufhai, Dom Boaventura manda os seus homens controlar os todos os acessos ao monte Cablac e às colinas de Riac e Leo-Laco. Nesse sentido os timorenses em rebelião armados de catanas, diman e algumas espingardas estabelecem postos de vigia nos altos dos montes e colinas, nas encruzilhas dos caminhos, e ao longo de regatos e rios. No alto das serras os “revoltoso” tinham amontoado pedras e pedregulhos para lançarem sobre os malaes e seus aliados quando avançassem por aqueles carreiros. Foi assim que as tropas governamentais tiveram algumas baixas e o próprio governador Filomeno da Câmara ficou ferido chegando ao ponto de ser capturado na zona de Aituto. Num dos recontros os manufaistas apoderaram de um canhão das forças governamentais.

Nesse início de guerra os nativos conheciam os recônditos das localidades: grutas, buracos, precipícios, ravinas, curvas e contra-curvas. Ao divisarem a aproximação do inimigo, utilizavam códigos para se comunicarem com outros: Essa comunicação consistia nos assobios, sopro de chifres do búfalo e através de fogueiras. Por outro lado os male muitn e seus aliados avançavam com dificuldade no terreno. Os meses de Janeiro, Fevereiro e Março eram a época de chuvas. Havia enxurradas e deslizes de terra; nevoeiro na zona de Cablac era intenso e o frio arrepiante. A viagem tinha de ser feita a pé ou de cavalo. Na altura ainda não havia carros de combate, nem camiões ou unimogues.

O Governador sabia que não era fácil chegar a Same para repor a soberania e ordem e prender o régulo de Manufahi. Por isso, além de ordenar o alistamento de moradores de todo o território, pediu ajuda ao Governo de Lisboa e de Macau.

Como resultado dessa diligência, no dia 6 de Fevereiro chega a Díli a canhoeira Pátria sob o comando do tenente Jaime Inso. No dia 11 do mesmo mês desembarcou em Díli a Companhia Europeia da Índia que transportada a bordo do navio inglês St. Albans. A força consistia em três oficiais e 75 soldados, dos quais 35 eram europeus, sendo o restante contingente composto por jovens mestiços da índia e goeses. Estes soldados indianos foram expedidos no dia 13 para Manatuto, onde o capitão José R. Fuare de Rosa os constitui em coluna com 66 moradores e 647 homens dos arraiais de Vemasse (450) Laleia e Cairui. Os moradores, de Baucau comandados pelo Liurai Freitas de Vemasse já tinham avançado para Bibuçuço nos meados de Janeiro.

No dia 15, chegava a 8ª Companhia Indígena de Moçambique (malae metan) que desembarcou do navio inglês Aldehanam. Era comandante desta Companhia Capitão Jaime Ramalho. O governador destinou 50 homens para Suro.  

Com este reforço, a 22 de Fevereiro de 1912, as forças portuguesas eram assim constituídas:

1. Quartel General: 13 oficiais, 34 soldados, 375 moradores e 2.300 auxiliares;

2. Contingente da Zona leste, com a sede em Manatuto: 5 oficiais, 67 soldados, 2 voluntários, 41 moradores e 1.800 auxiliares.

3. Contingente da Fronteira: na zona de Batugadé e Balibó. Um oficial, 14 soldados e 11 moradores. Estas forças atacaram Atsabe desde o dia 18 de Fevereiro até 21 de Março.

4. Contingente de Oeste: incluía as zonas de Bobonaro e Hatolia. O contingente era formado por dois oficiais, 66 soldados, 368 moradores e 2.000 auxiliares. Nessa zona lutou-se ferozmente.

5. Dispositivo de Díli: a canhoeira Pátria, um oficial, 50 moçambicanos e um número indeterminado de moradores.

6. Dispositivo de Ermera: moradores locais e voluntários de Baucau e Manatuto.

No dia 22 de Fevereiro Filomeno da Câmara à frente de dispositivo de Quartel-general estabelece o acampamento em Maubisse. Projectava-se o avanço para sul, em direcção a Cablac e Same. Na zona oriental, com o avanço das forças governamentais algumas povoações que tinham aderido à revolta foram-se submetendo às autoridades: Turiscai, Bibuçuço, Alas, Dotic.

Porto, 5 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Thursday, 5 January 2012

EUCAÇÃO PARA A PAZ


author : Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

A última Mensagem do Papa Bento XVI para o 45º Dia Mundial da Paz versa o tema da “Educar os Jovens para a Paz e a Justiça”.
Etimologia da “educação”

A palavra “educação” segundo alguns pedagogos, provém do verbo latino “educare”, que, no seu sentido mais primitivo, significa criar, alimentar. Outros fazem-na derivar do verbo “educere”, composto da preposição ex, que indica direcção para fora, e do verbo educere (conduzir), significando, por isso tirar de dentro para fora.

O Papa Bento XVI sublinha este segundo aspecto. Diz o Papa: “ A educação é aventura mais fundamental e difícil da vida. Educar – na sua etimologia latina educere – significa conduzir para fora de si mesmo ao centro d a realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa”.

No entanto estas duas raízes etimológicas completam-se para nos dizerem que a educação supõe dois movimentos: um de dentro para fora: o desenvolvimento; outro, de fora para dentro: a ajuda, o alimento, o apoio, a orientação dos outros. Partindo deste princípio pode-se “definir a educação como desenvolvimento integral, harmonioso e progressivo da pessoa humana à sua plena maturidade” (Américo Veiga, A Educação Hoje”, 2005, p. 13).

A palavra “educação” designa o processo global da sociedade pelo qual as pessoas e os grupos sociais aprendem a assegurar conscientemente no interior da comunidade nacional e internacional e em benefício desta, o desenvolvimento integral da sua personalidade, das suas capacidades, das suas atitudes, das suas aptidões e dos eu saber.

A educação para a paz é um processo para incutir nas pessoas uma nova maneira de ver, de entender e de viver o mundo. A verdadeira educação para paz é aquela que leva as pessoas a acreditarem nos valores positivos: a importância da vida humana; a fraternidade humana, a cooperação internacional, o respeito e a tolerância, o diálogo, etc.

Como vivemos numa “aldeia global” a educação para a paz deve caracterizar-se pela compreensão e respeito de todos os povos, das suas civilizações, dos seus valores e dos seus modos de vida, incluindo as culturas da etnias nacionais e de grupos minoritários; a educação para a paz deve apontar para capacidade de comunicar com os outros, a consciência não só dos próprios direitos, mas também dos deveres que os indivíduos, grupos e nações têm para com os outros; a educação para paz deve criar nos indivíduos a vontade e capacidade de resolver os problemas das suas comunidade, dos seus países de do mundo.

Os programas ou as áreas para uma verdadeira educação à paz: a) a aprendizagem de uma cidadania democrática; os direitos humanos, a democracia e a tolerância; paz e segurança regionais e internacionais; o desenvolvimento económico, e social sustentável; livre circulação de informação e conhecimentos, os valores éticos; a prática de virtudes como: a justiça, solidariedade, generosidade, perdão, etc.

Todas as componentes da sociedade devem envolver-se no processo da educação para a paz:

1 - Os próprios indivíduos: a vontade firme em educar-se e formar-se para uma cultura de paz interior e de paz social. A paz interior é a tranquilidade de espírito proveniente da capacidade de domínio das paixões (ódio, vingança, ira, etc.), e da consciência de estar em comunhão de amizade com Deus e com o próximo. A paz social ou a paz exterior é a tranquila convivência com as pessoas e com as coisas criadas.

2 - A Família: Neste contexto, os pais são os primeiros educadores dos filhos. A família é a primeira escola de valores e de virtudes.

3 - As instituições educativas (o jardim infantil, a escola, a universidade): são espaços para a formação de personalidade dos alunos no serviço à comunidade, no respeito pela diferença e no espírito de colaboração.

4 - As religiões: as religiões contribuem para a educação da paz quando incutem nos seus seguidores o sentido do Absoluto, a capacidade de admiração e de espanto perante o belo, o bem e o justo; quando ensina as virtudes de respeito, tolerância, perdão e amor. As religiões devem ser factores de paz, de tolerância, de colaboração e de respeito.

5 - Os Estados: os estados têm o papel fundamental na educação dos seus cidadãos: através de políticas que desenvolvam nos educadores uma ética de valores morais culturais e religiosos; através de programas de conhecimentos interdisciplinares sobre os problemas mundiais da guerra, da fome, da destruição do meio ambiente, da corrupção, da corrida ao armamento e do fabrico de armas de destruição maciça. O Estado poderá ser um promotor de paz quando os governantes evitam a corrupção, as injustiças, a exploração, evitando a descriminação e criando uma sociedade justa, fraterna e solidária.
(continua no próximo número)

Porto, 2 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Saturday, 31 December 2011

AS ELEIÇÕES DE 2012 EM TIMOR-LESTE E A NECESSIDADE DA PRESERVAÇÃO DA PAZ


No ano de 2012 realizar-se-ão em Timor-Leste as eleições presidenciais e legislativas. Para que essas eleições sejam justas, é indispensável que elas decorrem num clima de paz e de tranquilidade. Para que haja paz e tranquilidade nas aldeias, vilas e em todo o país, é necessário que os Timorenses se eduquem para a paz, para a democracia, para o diálogo e vivam numa cultura de paz.

Mas o que é a paz? Em Tétum a paz diz-se “dame”, em Bahasa Indonésia “kedamaian”, em Português paz. A palavra portuguesa “paz”, a espanhola “paz”, a italiana “pace”, a francesa “paix” e a inglesa “peace”, provém da palavra latina “Pax, pacis”. O termo pax, pacis com o dativo pacem, corresponde ao termo hebraico shalom, palavra que deriva da raiz “shelemut” e, significa perfeição, plenitude.
No Império Romano o conceito de Pax indicava o período em que a nível interno, não havia lutas, nem conflitos nem guerras civis. Pelo contrário predominava uma ordem geral de ordem, de tranquilidade. Essa ordem geral chamava-se “Pax Romana”. Ligado ao conceito da paz, os romanos cultivavam outros conceitos abstractos, como concordia (concórdia), honor (honra), fides (fé), virtus (virtude), victoria (vitória).
No contexto judaico-cristão, ao termo Shalom existem termos associados como harmonia, tranquilidade, felicidade, prosperidade, bem-estar, graça. Shalom significa ainda bênção, manifestação da graça divina, justiça, verdade. No livro do profeta Isaías a “paz é fruto da justiça” (Is. 32,17). Segundo o mesmo Profeta “Deus é Príncipe da Paz messiánica (Is. 9, 5).
Nos Evangelhos, a palavra paz ocorre em várias passagens. Na noite em que nascia o menino Jesus, os Anjos cantavam: “Gloria a Deus nas alturas e paz aos homens de boa vontade”(Lc 2,14s); Depois da sua Ressurreição, Nosso senhor Jesus Cristo dirige palavras de paz aos seus discípulos: “ A paz seja convosco” (Jo. 21, 19 e 21); “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz” (14,27). São Paulo afirma que a verdadeira paz é o pessoa de Jesus Cristo: “Ele é a nossa Paz” (Ef.2, 14).
Os Padres da Igreja nas suas catequeses insistiam muito a paz, a ordem, a tranquilidade, a justiça e o amor ao próximo. Santo Agostinho,  bispo de Hipona (séc. IV), no norte da África, dizia que a paz  é a “tranquilidade na ordem.
No século XX, depois das duas Grandes Guerras Mundiais (1914-1918) e (1939-1945) As Nações Unidas publicaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Logo no Preâmbulo se pode ler:  Considerando que o reconhecimento d dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo.
Ainda no século passado a Igreja Católica quer através dos Documentos do Concílio Vaticano II quer através do magistério dos Papas (João XXIII, Paulo VI e João Paulo II) tem repetido em várias ocasiões que questão da Paz é fundamental para a vida dos homens e do planeta.
O Concílio Vaticano II afiram que a paz não é só a ausência da guerra e nem se reduz ao estabelecimento de equilíbrio entre forças adversas (cfr. GS, n. 78). Para se edificar a paz é necessária a vontade firme de respeitar a dignidade dos outros homens, outros povos e, portanto, é necessária a prática da fraternidade.
Segundo o Papa Paulo VI (1963-1978) o novo nome da paz é desenvolvimento. Porém, não se trata apenas de um desenvolvimento económico, mas um desenvolvimento autêntico que visa promover todos os homens e o homem todo. Nesta perspectiva, a paz significa a erradicação de injustiças e desigualdades de ordem económica ou social; erradicação de invejas, de desconfiança e do orgulho que grassam entre os homens e as nações e que são uma constante ameaça a paz (cf. a Carta Encíclica Populorum Progressio, n. 5, n. 13, etc.).
O antecessor de Paulo VI, o Papa João XXIII (1958-1963), escreveu a Encíclica Pacem in Terris. Na perspectiva do Papa, “as mútuas relações internacionais devem regular-se não pelo recurso à força das armas, mas pela norma da recta razão, isto é, na base da verdade, da justiça e de uma activa solidariedade.”(cfr. P. in T., nn. 34-38).
(continia no próximo número).

Porto, 30 de Dezembro de 2011.
Dom Carlos Filipe ximenes Belo

Tuesday, 17 May 2011

LORON INDEPENDENSIA – 20 de Maio de 2002.

Dom Carlos Filipe Ximenes Belo
 


Uluk kna-na’in atan há’u foti neoN ba Lalehan hodi agradese ba Na’in Maromak, nebé tulun ona Povu Timor Loro Sa’e bele hetan kbiit atu ukun rasik-aan.”

“Obrigadu wa’in, Aman Maromak, tan ba grasa boot ida nee!”.

Hanoin rua, atan há’u hasae orasoens no hamulak  ba Assuwa’in Matebian sira nebé, hori otas ba otas, funu atu tahan ni-nia liberdade no identidade hanesan Povu ida no Nasaun ida.

Ho Komunidade Internasional nia tulun, liuliu ho Nasões Unidas nia apoio, Povo Timor bele ukun rasik-aan!

Loron 20 fulan Maio tinan 2002, loron boot ba Timor oan tomak, tan ba iha loron ne’e, ita tomak bele dehan: La iha tan ema seluk ukun iha Rai Timor Loro Sa’e! Loron 20 de Maio loron Independensia lolós ba Timor-Loro Sae.

Independensia nee’ iha nia fundamentu iha Povu tomak nia desizaun: tan ba hili dalan importante ida: Referendum iha loron tolu nolu, fulan Agostu tinana 1999. Independensia nee hetan  nia legitimidade hosi Nasoens Unidas, tan ba Sekretariu-Jeral Rasik, senhor Kofin Annan mak fo sai katak Timor-Leste Independente ona, hanesan rai seluk-seluk iha mundu.

Independensia ne’e ema hotu-hotu rekonhese! Independensia ne’e, Igreja (Vaticano) rasik rekonhese. Amo Papa, agora ne’e, Beato João Paulo II, haruka ni-nia delegadu, Arcebispo Dom Renato Martino, atu halo Missa boot iha Tasi Tolu, hamutuk amo bispo Administrador Apostólico na’in rua (Dili no Baucau) amo lulik sira.madres sira no sarani lubun boot.

Wainhira missa ne’e remata tiha, Komandante Falintil Xanana Gusmão, Presidente Republika  ba dala ukuk,  hakat ba Altar oin, lori bandeira nasional, atu simu bensa, nebé Arcebispo Renato Martino mak hisik we lulik, ka água benta. Hafoin Bispo na’in rua entrega hikas Bandeira ne’e ba Presidente da Repúblika.

Ho Independensia tinan 2002, mak iha Rai Timor-Leste, bele  harii Estado timorense: Timor-Leste sai duni Repbúblika; iha nia Constituição; ni-nia Orguns de soberania: Presidente, Governo; Parlamento no Tibunais; Ofisialmente iha Forsas Armadas no Polisia Nasional, Alfândega no Servisus de Imigrasaun. Iha passaporte rasik no selus rasik, etc.

Ho Independensia lolós iha 20 de Maio, mak Timor-Leste, sai membru ba Organizasaun Nasoens Unidas nian; bele halo akordus internasionais; bele  haruka Embaixadores Plenipotensiarius ba rai leluk ho “cartas credenciais”.

Ho Independesia 20 de Maio mak Timor oan sira bele harii sistema multipartidariu, katak iha Timor Loro Sa’e, iziste partidu politiku oin oin.

Maibé, liu tiha tinan sia, ita bele husu ba ita-aan raisk: Indepenensia ba se’e loss? Independensia ne’e atu halo saída? Ho Independensia ne’e, Timor oan tomak hetan ona diak?

Ema hotu hotu hetan edukasaun? Hetan kultura? Hetan servisu nasioal de saúde gratuitu?Halakon ona odiu no violensia? Ema hotu hotu respeita direitos humanus? Ema hotu hotu buka tulun malu? Respeita malu? Hadomi malu? Timor oan sai riku hanesan, no kiak hanesan? Ka balu riku liu, balu kiak rabat-rai?

”Bele akontese, balu sai “malae-boot”, balu sai atan no kuda-reino nafatin!

Atan há’u hanoin Independensia ne’e sei sai kapaz liu tan, winhira, ita tomak serbisu ba “kapasitasuan” Timor oan tomak nian. Dehan katak, iha área hotu-hotu, politiku, ekonomiku, kultural, sientifiku, militar, sosial, desportivu, tekonolojiku, relijiozu, espiritual, Timor oan tomak, mane ka feto, iha kbiit atu hala’o ni-nia serbisu ho kompetensia, profisionalizmu, responabiliade, sakrifisiu, dedikasaun, ksolok . Atu hetan “kapatisaun ida ne’e, ita Timor oan rasik mak tem ke estuda, serbisu, planeia, organiza no deside. La iha ema seluk atu desidi iha ita nia fatin.

Liafuan ikus: atan hakru’uk ba Assuwain Timor oan tomak nebé fakar ona sira ran ba Timor nia liberdade no independensia! Há’u reza ba ulun no ukun n’ain sira atu serbi di-diak ita nia povu. Há’u haruka hakoak boot ba povu ki’ik sira iha foho nebé sei terus…Korajem ba foin sa’e sira atu kontinua defende Independensia ida ne’e!

Viva Loron 20 de Maio! Viva Timor-Leste Independente!

Porto, 13 de Maio de 2011.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Nota: Artigu ne'e sei publika iha Jornal Tempo Semanal iha edisaun especial ba aniversariu 20 de Maiu 2011