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Tuesday, 27 November 2012

PARTE VII: A GUERRA DE MANUFHAI – 3ª fase (continuação)


PELO Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Os meses de Agosto, Setembro e Outubro de 1912 foram dramáticos para Dom Boaventura da Costa, para a família e para os seus combatentes. Pode-se dizer, foi um desastre geral para o povo assuwain de Manufahi. Derrotado e acossado pelas forças portuguesas e seus aliados (moradores e auxiliares timorenses) o povo de Manufahi tinha perdido tudo; casas, plantações, culturas, gado, etc.

O liurai Dom Boaventura estava escondido na floresta e nos pântanos de Betano. Da sua família, perdeu a mãe e os irmãos. Relata Jaime de Inso: “ Toda a família daquele famoso régulo foi decapitada no próprio solar, incluindo a mãe, cuja sorte ouvimos lastimar, porque se tinha mostrado  amiga dos portugueses” (Timor 1912, p. 198).

Entre os combatentes de Manufahi muitos foram mortos. Outros passaram a combater ao lado dos portugueses. A estes quando lhes foi perguntado porque não se rendiam, respondiam: “ e vós por que não vos rendeis ao nosso governador de Timor, Dom Boaventura?”(Nusá imi la rende ba ami nia Embot Dom Boaventura?).

Os dias 11 e 12 de Agosto de 1912 foram dias de chacina. Os moradores passavam horas a cortar as cabeças aos rebeldes. Tal foi a quantidade de cabeças cortadas que os moradores exclamavam: “Já doem os braços, senhor, já não pode cortar mais cabeças”. Calcula-se que nesses dias terão morrido mais de 1.700 timorenses. Só a 10ª Companhia dos moçambicanos registou no seu palmarés 628 mortos e 410 prisioneiros.

Entretanto, a 13 de Agosto de 1912, o governador Filomeno da Câmara nomeava o tenente Francisco Pedro Curado novo comandante de Same. Coube a este oficial português a missão de procurar e prender Dom Boaventura da Costa. A missão de ataque ao reduto do régulo de Manufahi vai demorar dois meses.

No dia 17 do mesmo mês, o governador regressa vitorioso a Díli. Regressam também os destacamentos de moradores e de auxiliares. A entrada na Praça de Díli foi de festa e de vitória: os moradores tocavam tambores e cornetas; exibiam bandeiras e cabeças de inimigos, umas  espetadas nas pontas de bambu, outras penduradas em cordas. O governador autorizou uma festa macabra. Além das danças tradicionais de tebe, dahur, e bidu, foi organizada a festa de cabeças. Fazia-se um círculo e dava-se pontapés às cabeças cortadas. Depois dos festejos, as companhias de moradores regressavam aos seus comandos levando os troféus da guerra: os presos (homens, mulheres e crianças) ficarão como escravos (atan); as cabeças dos inimigos mortos serão depositadas nos montículos lulic ou nas cavernas das florestas lulic da aldeia. Alguns vencedores levarão para as suas terras búfalos, cavalos cabritos e porcos.

Nos dias 23 e 24 de Outubro o tenente Curado acompanhado dos seus homens lança um ataque ao reduto de Pau Preto. Travou-se um renhido combate, pois Curado perde quatro homens. O liurai põe-se em fuga, mas muitos dos seus homens rendem-se. Finalmente, no dia 26 de Outubro de 1912, Dom Boaventura Souto Maior entrega-se às forças do tenente Francisco Curado.

Depois de ter sido preso, o régulo de Manufahi será levado para Díli. Sobre a prisão, levantaram várias hipóteses: Ataúro? Balibó? Batugadé? Aipelo? Com Dom Boaventura foram presos o “major” Mali-Coli de Leolima; Dom Vicente, irmão de Dom Boaventura. João primo do régulo, o régulo de Aituto, Nai Clara. O régulo de Alas caiu varado na planície de Aiassa.

As perdas humanas no final da terceira fase da guerra de Manufahi: do lado das forças governamentais: 205 mortos e 377 feridos; do lado dos “rebeldes”: 2.684 mortos e 8.144 feridos.
(continua no próximo número)


Porto, 23 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

PARTE VI: A GUERRA DE MANUFHAI – 3ª FASE


PELO Dom CARLOS FILIPE Ximenes BELO

Estávamos no mês de Julho de 1912. No dia 17, a 10 ª Companhia moçambicana chega a vila de Same, mas esta estava destruída. A companhia foi encarregada de ocupar a parte oriental da colina de Leo-Laco, num sítio chamado Bandeira. No dia 19 as forças governamentais lançam uma mina de 42 kg de pólvora que abre uma brecha na muralha de Riac. Em consequência dessa acção, dá-se o assalto às regiões ao sul de Riac. No dia 20 os rebeldes atacam Bandeira. Após renhidos combates, o destacamento do governo toma o lado norte de Rica. No dia 21 de Julho Riac rende-se sem reservas. Os rebeldes tiveram 59 mortos. Da população, 4.536 pessoas foram presas. Os prisioneiros tinham em seu poder 342 espingardas, 1.100 azagaias, 1.800 espadas e nenhuma pólvora. Na tomada de Riac, os portugueses tiveram 40 mortos e 90 feridos. Os portugueses efectuaram 628 disparos e gastaram 30.000 cartuchos. O cerco de Riac durou 41 dias.

E onde se encontrava o líder da revolta, Dom Boaventura da Costa? O valoroso régulo de Manufahi estava entrincheirado no alto de Lao-Laco rodeado dos seus asswain. Tendo conquistado Riac, o governador Filomeno da Câmara planeia o assalto ao monte Leo-Laco. Nos dias 28 e 29 de Julho, as forças governamentais ocupam cinco postos avançados de um lado e do outro da ribeira Aiassa. Travam-se os combates. No dia 1 de Agosto, a 10 ª Companhia moçambicana é rechaçada de uma aldeia, mas no dia 3 voltou a controlar essa povoação. No dia 5 de Agosto, Dom Boaventura e os seus guerreiros tentam uma sortida contra as linhas portuguesas. Mas no dia 6, os portugueses conseguem penetrar no reduto de defesa à volta de Leo-Laco. Num dos cumes da colina, são tomados os víveres e um canhão japonês. No dia 8, o acampamento de Dom Boaventura ainda não era tomado. As penetrações nesse reduto eram difíceis, pois rebeldes haviam fortificado trincheiras e ofereciam resistência. Os combates entre os sitiados e os atacantes prolongaram-se até o dia 10 de Agosto.

Vendo-se cercado pelo inimigo, Dom Boaventura envia ao governador novas propostas de rendição. Promete pagar uma indemnização de guerra e render-se com toda a sua gente se os portugueses abandonassem o cerco e se retirassem para Same. Mas Filomeno da Câmara recusa a proposta e matem firme o propósito de subir ao cume de Leo-Laco. Vendo recusada a proposta de rendição, Dom Boaventura manda os seus homens continuar a luta. Assim no dia 10 de Agosto, à noite, na zona leste de Leo-Laco, um grupo de rebeldes conseguiu forçar o bloqueio e obrigou a recuar a 10 Companhia, os moradores e os auxiliares. Deu-se então a fuga de muitos rebeldes para as florestas vizinhas. Alguns deles são caem mortos, mas a maioria conseguiu escapar-se. Na zona oeste, os rebeldes forçavam também o cerco e tentavam escapar-se. Infelizmente muitas mulheres e crianças foram feitas prisioneiras. Os combates prosseguem no dia 10 de Agosto à noite. O avanço dos portugueses para cume de Leo-Laco intensificava-se. Os rebeldes, não podendo resistir, procuravam brechas para se escaparem. Nessa noite um grupo de assuwain preferiu matar as mulheres e filhos e depois suicidando-se do que entregar-se aos invasores que certamente lhes cortariam a cabeça e levariam como troféu para suas aldeias mulheres, crianças e adolescentes. Na parte de sul de Leo-Laco, cadáveres de rebeldes jaziam pelos caminhos e no meio das ervas. Dom Boaventura e alguns dos seus guerreiros conseguiram atravessar as linhas portugueses e penetrar nas florestas do sul.
No dia 11 de Agosto de 1912, o régulo Dom Boaventura tinha-se refugiado na floresta de Pau Preto junto de Betano.

Porto, 19 de Janeiro de 2012.
Dom CARLOS FILIPE Ximenes BELO

Monday, 26 November 2012

PARTE V: A GUERRA DE MANUFAHI (VI)


Pelo Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Como dissemos nas crónicas anteriores que durante os meses de Fevereiro e Março do ano de 1912, estavam a decorrer as operações contra o reino de Manufahi.

O avanço das forças governamentais apoiadas por arraiais dos comandos militares ia tornando mais difícil a vida dos timorenses em rebelião. As áreas de Cablac ocupadas pelos “manufaistas” iam-se tornando mais estreitas. Dom Boaventura da Costa, a família e muito povo encontravam-se entrincheirados nas fortalezas de Riac e leo-Laco.

As consequências da guerra eram várias: aldeias abandonadas, casas incendiadas, roubo de gado; abandono de culturas (café, milho e arroz), doenças, fome, e morte. Tanto da parte dos rebeldes como doas forças governamentais havia muitos feridos e dezenas de mortos. Fizeram-se dezenas de prisões. Na Praça de Díli, em 1912, havia mais de 4 mil prisioneiros na cadeia.

Mas, não era só à volta de Cablac que decorriam as operações contra os rebeldes. Na região de Bobonaro as forças do governo realizaram vários “raids” contras as populações. Houve operações à volta de Bobonaro, Atabae, Atsabe, Hatolia e Cailaco. Essas operações tinham o objectivo de eliminar possíveis revoltosos e de impedir a sua passagem até Manufahi. Mesmo assim, os portugueses registaram entre as suas fileiras, 30 mortos e uma centena de feridos.

Sucedeu, então que em vários reinos, sobretudo, da parte ocidental, muitas pessoas começaram abandonaram as suas aldeias, procurando refúgio nos reinos vizinhos ou no território de Timor holandês.

Famílias inteiras de Atsabe, Leimean, Deribate Cailaco dirigiam-se para Memo e para a fronteira. O êxodo destas famílias ocorreu nos dias 9 e 10 de Maio de 1912. Foi nesta ocasião, que o régulo de Memo, Bere-Tali perpetrou o massacre contra os fugitivos, nas margens do rio Malibaca. Segundo o Relatório das Forças da Fronteira, o régulo e os seus homens mataram mais de 100 pessoas, entre as quais 6 chefes. Nos fins de Maio, na povoação de Sadi, no território holandês, havia 2.000 refugiados timorenses.

Conta-se que em Atsabe, as pessoas preferiram morrer de fome e de sede nos seus esconderijos a entregar-se às forças governamentais. Conta-se ainda que os timorenses fiéis ao governo, numa das suas campanhas pelas aldeias, cortaram mais de 300 cabeças aos seus inimigos.

O corte de cabeças era um acto de valentia. Morto o inimigo, a cabeça é decepada e levada para o acampamento. Os acampamentos das tropas em Maubisse estavam enfeitados com cabeças cortadas.

No mês de Abril de 1912, Dom Boaventura escreveu ao governador Filomeno da Câmara apresentando as condições da sua rendição. Mas o malea boot (embot) não fez caso do pedido e continuou a reforçar as suas posições no terreno.

No dia 29 desse mês chegavam a Díli mais reforços. Tinha atracado um navio português que levava a 9ª Companhia de soldados moçambicanos, (seis oficias, 14 sargentos e 233 soldados). Metade dessa companhia seria encaminhada para Suro, via Liquiçá, Hatolia e Atsabe.

Porto, 12 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo


Sunday, 25 November 2012

PARTE IV: A GUERRA DE MANFAHI – 2ª Fase – continuação


Pelo Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

 A segunda fase ou o segundo período da guerra durou cerca de quatro meses (Fevereiro a Junho).
Os “rebeldes” tinham atacado várias povoações com o intuito de travar o avanço das forças do governo. Nalgumas zonas por eles controladas haviam recolhido mantimentos, bens e gado no alto nas serras (fohon tutun).

O governador Filomeno da Câmara e os seus homens estavam decididos em avançar para Cablac combatendo os rebeldes no seu terreno. Mas devido à configuração do terreno e à existência de vários grupos de rebeldes espalhados pela região, foi preciso fazer primeiro o reconhecimento do terreno. As forças governamentais avançavam para Cablac em três frentes. Da zona Leste, com arrais comandados pelo capitão José Faure da Rosa; da zona oeste, os arraiais sob o comando do tenente António Valente de Almeida; da zona norte, o próprio governo e o seu quartel-general.

Nos dias 28 e 29 de Fevereiro e no dia 1 de Março de 1912, o reconhecimento do terreno foi efectuado pelo batalhão do Tenente Almeida e do padre Manuel Alves Ferreira, missionário de Maubara. Perto de Maubisse, travou-se o combate e uma bala inimiga tirou a vida ao padre Ferreira. O padre expirou às duas de madrugada do dia 2 de Março.
No dia 3, sai de Soibada, o destacamento do capitão Faure da Rosa ia exploras as regiões de Terás. Nesse destacamento ia como voluntário o padre Manuel Laranjeira, missionário de Soibada.

Entretanto na zona norte, o governador ordenava o reconhecimento das regiões de Manucate, Hatobessi, Maulau, Lequidoe e Turiscai.

No dia 7 de Março realizou-se a exploração das regiões de Manucate. Nesse tempo os rebeldes dominava as povoações de Tumau e Hatobessi. No dia 15, as forças governamentais fazem assalto ao monte de Tumau. Nesse monte os timorenses tinham levado para lá todos os seus bens, incluindo o gado: búfalos, cavalos e cabritos. Pela força das armas, os rebeldes foram obrigados a sair dos esconderijos deixando para trás muitos animais. Os moradores dos arraiais apoderaram-se de 112 búfalos e de alguns cavalos.
No dia 25 de Março, as tropas de capitão Faure da Rosa, depois de renhido combate, ocupava Fatu-Boi (Fatu Boe).[1] Nesta campanha as forças governamentais eram formadas por arrais de Samoro sob o comando de Liria Vidal Sarmento, e os arrais de Vemasse, Laleia, Cairui. Luna de Oliveira descreve assim Fatu-Boi, depois dos combates: “Fatu-Boi, posição naturalmente inexpugnável, sulcada em sucessivas linhas defensiva, biseladas na rocha, atravanca de arvoredo frondoso, era um cemitério ao ar livre. O cheiro pestilento, mal inumados empestava o ar. Cabeças dos mortos espreitavam á flor da terra, tal fora a pressa com que os enterraram” (Luna, III, p. 122). Depois dessa acção as forças tomaram sem dificuldade Dotic e Sarim[2]. O chefe do Suco Laca-Dala-Nai sucumbiu ao combate. A cabeça foi decepada e levada ao acampamento dos malae como troféu. Nesse período ocupou-se Fatuberliu. No mês de Abril de 1912, as regiões a leste de Same estavam submetidas (Alas, Bibiçuço).

Na zona oeste alguns reinos estavam em rebelião. O reino de Cailaco persistia na rebelião e tentava seduzir outros reinos, como o de Atabai, o régulo Bere-Talo. Contra Bere-Talo, o capitão Fonseca Cardoso, comandante militar de Batugadé organizou uma campanha que decorreu entre os dias 3 e 10 de Março. O destacamento comandado pelo sargento Humberto Maria Fernandes era composto por 35 moradores.

Na zona sul (Suro) o destacamento composto por 50 soldados, 2 voluntários e 107 moradores controlavam as regiões de circunvizinhas à vila não impedindo a incursão dos “manufahistas.”

Entre os dias 17 e 27 de Março Atabai era atacada pelas forças do Capitão Fonseca Cardoso. Nessa operação participaram 456 homens: soldados do esquadrão de cavalaria da fronteira, soldados moçambicanos e um pequeno arraial de moradores de Balibó. Os rebeldes de Cailaco não queriam render-se pois declaravam que preferiam morrer nas montanhas e nos rios do que serem portugueses.

Em Manufahi, Dom Boaventura da Costa Souto Maior sentia-se mais isolado pois não recebeu mais adesões de novos reinos. Os seus homens, além de continuarem em sentinela nas zonas fronteiriças, iam consolidando as fortificações de defesa em Riac e Leo-Laco.

Mas na segunda metade do mês de Março de 1912, o governo viu revoltar-se Dom João da Cruz Hornay, régulo de Ambeno. A revolta de Ambeno será o tema do capítulo a seguir.

Porto, 6 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo




[1] Fatu Boe, povoação pertencente ao suco de Fatu Cahi, Sub-Distrito de Fatuberliu.
[2] Sarim, povoação pertencente a Alas e fazia baliza com o rio (mota) Clere.

PARTE III: A GUERRA DE MANUFAHI – SEGUNDA FASE


PELO Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Prevendo o avanço das forças governamentais e as movimentações dos arraiais de moradores da 2ª linha que iam chegando à região de Manufhai, Dom Boaventura manda os seus homens controlar os todos os acessos ao monte Cablac e às colinas de Riac e Leo-Laco. Nesse sentido os timorenses em rebelião armados de catanas, diman e algumas espingardas estabelecem postos de vigia nos altos dos montes e colinas, nas encruzilhas dos caminhos, e ao longo de regatos e rios. No alto das serras os “revoltoso” tinham amontoado pedras e pedregulhos para lançarem sobre os malaes e seus aliados quando avançassem por aqueles carreiros. Foi assim que as tropas governamentais tiveram algumas baixas e o próprio governador Filomeno da Câmara ficou ferido chegando ao ponto de ser capturado na zona de Aituto. Num dos recontros os manufaistas apoderaram de um canhão das forças governamentais.

Nesse início de guerra os nativos conheciam os recônditos das localidades: grutas, buracos, precipícios, ravinas, curvas e contra-curvas. Ao divisarem a aproximação do inimigo, utilizavam códigos para se comunicarem com outros: Essa comunicação consistia nos assobios, sopro de chifres do búfalo e através de fogueiras. Por outro lado os male muitn e seus aliados avançavam com dificuldade no terreno. Os meses de Janeiro, Fevereiro e Março eram a época de chuvas. Havia enxurradas e deslizes de terra; nevoeiro na zona de Cablac era intenso e o frio arrepiante. A viagem tinha de ser feita a pé ou de cavalo. Na altura ainda não havia carros de combate, nem camiões ou unimogues.

O Governador sabia que não era fácil chegar a Same para repor a soberania e ordem e prender o régulo de Manufahi. Por isso, além de ordenar o alistamento de moradores de todo o território, pediu ajuda ao Governo de Lisboa e de Macau.

Como resultado dessa diligência, no dia 6 de Fevereiro chega a Díli a canhoeira Pátria sob o comando do tenente Jaime Inso. No dia 11 do mesmo mês desembarcou em Díli a Companhia Europeia da Índia que transportada a bordo do navio inglês St. Albans. A força consistia em três oficiais e 75 soldados, dos quais 35 eram europeus, sendo o restante contingente composto por jovens mestiços da índia e goeses. Estes soldados indianos foram expedidos no dia 13 para Manatuto, onde o capitão José R. Fuare de Rosa os constitui em coluna com 66 moradores e 647 homens dos arraiais de Vemasse (450) Laleia e Cairui. Os moradores, de Baucau comandados pelo Liurai Freitas de Vemasse já tinham avançado para Bibuçuço nos meados de Janeiro.

No dia 15, chegava a 8ª Companhia Indígena de Moçambique (malae metan) que desembarcou do navio inglês Aldehanam. Era comandante desta Companhia Capitão Jaime Ramalho. O governador destinou 50 homens para Suro.  

Com este reforço, a 22 de Fevereiro de 1912, as forças portuguesas eram assim constituídas:

 1. Quartel General: 13 oficiais, 34 soldados, 375 moradores e 2.300 auxiliares;

2. Contingente da Zona leste, com a sede em Manatuto: 5 oficiais, 67 soldados, 2 voluntários, 41 moradores e 1.800 auxiliares.

3. Contingente da Fronteira: na zona de Batugadé e Balibó. Um oficial, 14 soldados e 11 moradores. Estas forças atacaram Atsabe desde o dia 18 de Fevereiro até 21 de Março.

4. Contingente de Oeste: incluía as zonas de Bobonaro e Hatolia. O contingente era formado por dois oficiais, 66 soldados, 368 moradores e 2.000 auxiliares. Nessa zona lutou-se ferozmente.

5. Dispositivo de Díli: a canhoeira Pátria, um oficial, 50 moçambicanos e um número indeterminado de moradores.

6. Dispositivo de Ermera: moradores locais e voluntários de Baucau e Manatuto.

No dia 22 de Fevereiro Filomeno da Câmara à frente de dispositivo de Quartel-general estabelece o acampamento em Maubisse. Projectava-se o avanço para sul, em direcção a Cablac e Same. Na zona oriental, com o avanço das forças governamentais algumas povoações que tinham aderido à revolta foram-se submetendo às autoridades: Turiscai, Bibuçuço, Alas, Dotic.

Porto, 5 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

PARTE I: A GUERRA DE MANUFAHI (1911-1912)




Pelo Dom Carlos Filipe Ximenes Belo 
                       
Neste mês de Dezembro de 2011, completam-se os cem anos do início do conflito de Manufahi. O começo da guerra de Manfahi teve a sua origem na morte do comandante de Same tenente Luiz Álvares da Silva e de europeus (três militares e um civil) dentro da tranqueira de Same e do comandante e Faturberliu.
                       
Como é que tudo começou?

Em Dezembro de 1911, era comandante militar de Same o tenente Luiz Álvares da Silva; e era régulo (Liurai) de Manufai Dom Boaventura da Costa.

Conta-se que havia vários dias que Dom Boaventura não aparecia no Comando apesar de várias vezes ter sido convocado pelo tenente Silva. Dias antes, o comandante até mandara à casa do liurai (na localidade de Bandeira,) um soldado português, velho no Comando, amigo pessoal e compadre de Dom Boaventura. Esse soldado foi retido e depois assassinado.
           
Na manhã do dia 24 de Dezembro de 1911, véspera de Natal, o tenente Luís estava na sua residência e acabava de tomar banho. Apareceram no comando uns homens mandados por Dom Boaventura da Costa. Um ia amarrado e outros seguiam-no. Davam a entender que iam apresentar uma queixa ao comandante. O Tenente ao ver aquilo saiu para ouvir a queixa do que ia amarrado. Mas, de repente caíram golpes de catanadas sobre o comandante. Este tentou reagir correndo para dentro em busca da uma arma. Mas, tudo foi inútil. Os homens perseguem-no e cortam-lhe cabeça. A esposa do tente Silva estava dentro da casa com o filho ainda bebe. Os homens arrastam-na para fora e colocam no regaço a cabeça do marido. No interior da residência os timorenses reúnem os móveis sobre os quais colocam o cadáver do tenente Luís Silva. Entretanto mais três portugueses são mortos: dois soldados e um civil.

O irmão do régulo telefona ao Comandante de Fatuberliu Ferreira: “Diz o senhor comandante que, sendo amanhã Natal, o convida vir a Same, passar as festas como seu hóspede”. O comandante parte para Same no dia 25, mas foi morto perto da ribeira Sui.

Entretanto, Dom Boaventrua manda um guarda-fio acompanhar a mulher do malogrado tenente para Maubisse.

A notícia do assalto ao Comando de Same e a morte dos seis portugueses espalha-se pelas aldeias de Same. E de Maubisse, os ecos dos trágicos acontecimentos chegam a Dili.

Em resposta aos actos de rebelião, o governador Filomeno da Câmara mobilizou soldados, moradores e auxiliares que atacaram os redutos dos “revoltosos” desde Janeiro de 1912 até Outubro do mesmo ano. O resultado dessa campanha foi a prisão de Dom Boaventura e a sua consequente destituição no dia 26 de Outubro de 1912.
Os motivos remotos desta acção:

a) - Motivos nacionalistas: expulsar os portugueses de Timor. “Timor era para os Timorenses”. Rebeliões de 1895. Desde os tempos de Dom Duarte, pai de Dom Boaventura que os povos de Manufahi estavam rebelados contra os Portugueses. A forçada pacificação foi levada a cabo pelo governador José Celestino da Silva.
Desde tempos recuados que alguns reinos não aceitavam o domínio dos “malae muitin.” Basta recordar o pacto de 1719, cujo actor principal era o régulo de Camanasa, e a consequente guerra de Cailaco (1725-1726).

b) - Motivos políticos: A 5 de Outubro de 1910, deu-se a implantação do regime republicano em Lisboa. Os régulos timorenses que sempre juraram fidelidade ao rei de Portugal, não aceitaram a mudança do regime e a troca de bandeira. A bandeira real (azul e branca) pela nova bandeira (verde-rubra).Alguns liurais temiam que com o nome regime eles fossem destituídos e perdessem as regalias.

Diz-se que quando em Outubro 1910, os régulos foram a Díli para assistir à cerimónia da implantação da República, já havia um pacto para uma possível revolta. E que esses régulos eram incitados por timorenses assimilados ou civilizados, entre os quais se contava um mestiço chamado Domingos de Sena Barreto que era filho de um goês e de uma chinesa; e incitados por europeus ligados à loja maçónica de Díli e que estavam descontentes com o Governador.

Da parte das autoridades portugueses, forjou-se outro motivo: a implicação dos holandeses que eram monárquicos e que queriam também expulsar os portugueses de Timor, para poderem dominar toda a ilha.

c) - Motivos económicos:
As rebeliões que ocorreram em Timor, nos reinos das Províncias do Bellos e de Servião, tiveram a sua origem principal na cobrança de impostos.

Parecia que em 1911 o governo ia aumentar os impostos. A capitação deveria passar de uma pataca para duas patacas. O corte de uma árvore de sândalo seria taxado de duas patacas. Os coqueiros e os gados seriam recenseados. Seria estabelecido um imposto de 5 patacas aplicado sobre os animais abatidos por ocasião das cerimónias (enterros, construção de uma lulic e realização de estilos).

Foram estes os principais motivos de descontentamento por parte dos régulos que depois se uniram em guerra contra as autoridades.

Para o governo português e para muitos timorenses, o Natal de 1911 foi um Natal triste!

Porto, 22 de Dezembro de 2011.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Nota de Informasaun: Atu foo onra ba istoria centenariu Luta Dom Boaventura, ohin 24/11/2012, Jornal Tempo Semanal husu ona autorizasaun husi Amo Bispo Dom Carlos Filipe Ximenes Belo, atu Tempo Semanal bele publika hikas nai bispo ninia artigu sira iha online no iha Jornal iha edisaun semana oin ninian. Nai Bispo hatudu ninia laran luak hodi simu pedidu Jornal ne'e ninian ho tempu badak de'it Dom Belo  fo duni autorizasaun no haruka konteudu artigu ne'ebe Nai Bispo prepara nanis ona. Redasaun Tempo Semanal ho respeitu tomak hakarak hatoo agradecimentu wain ba Amo Bispo Dom Carlos Filipe Ximenes Belo ninia laran luak no espera katak sani sira bele akompania istoria Funu Manfahe ninian too rohan.