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Friday, 6 January 2012

A GUERRA DE MANUFAHI


PRIMEIRA FASE DA GUERRA

Para a grande revolta de 1911 e 19112, o Régulo Dom Boaventura havia estabelecido contactos com vários reinos: Atabae, Atsabe, Cailaco, Deribate, Ermera, Matata, Punilala, Suai, Leimean, Bibuçuço, Alas, Turiscai, Lequidoe, Raimean, Suai, Cová, etc.

No mês de Janeiro de 1912, várias povoações revoltaram-se abertamente contra o governo. Fontes portuguesas falam de levantamentos em Manucate, Lequidoe, Hatobessi, Fatuboro, Babulo, Tumau, Babulo, Loto-Po, Alas, Leolima, Aituto. Os combatentes de Manufahi e seus aliados, exibiam a antiga bandeira azul branca (da Monarquia portuguesa), ao passo que as forças governamentais exibiam a nova bandeira, verde-rubra, adoptada pelo novo Regime republicano.

O governador Filomeno da Câmara prevendo um levantamento geral, toma a iniciativa de ocupar Aileu e Maubisse para travar o avanço dos rebeldes sobre a Praça de Díli.

O dia 5 de Janeiro de 1912 marcou o começo das operações contra os rebeldes Manufaistas. Nesse dia, o tenente António Joaquim de Almeida encontra-se em Suro para defender aquela povoação e rechaçar os ataques dos rebeldes de Manufahi. No dia 6, teve de regressar a Hatolia, porque tinha começado uma rebelião chefiada pelo antigo régulo D. António, que foi morto no local. Em meados de Janeiro, o tenente Almeida reúne um contingente formado por um oficial, seis sargentos, dois soldados europeus, 260 moradores e cinco voluntários europeus e auxiliares de Deribate, Maúbo, Maubara e Fatumasi. Nesse contingente incorporou-se o missionário de Maubara, o padre Manuel Ferreira.

No dia 12 daquele mês parte o primeiro contingente de forças governamentais para Aileu sob o comando próprio governador. No dia 17, os revoltosos pretendem atacar Aileu, mas denunciados pelo chefe do suco de Saboria, Brás, são rechaçados. No dia 19, registam-se combates entre “revoltosos” e moradores fiéis ao governo, nas balizas de Bibiçuço. Foi preciso mobilizar contingentes de Alas, Betano e Manufahi, para combater os rebeldes naquela zona. Desse combate em Bibiçuço, registaram quinze mortos do lado dos “revoltoso e 2 do lado do governo.

Para dominar Bibuçuço, o governo mobilizou 2.950 combatentes de Vemasse, Laclubar, Samoro, Laleia, Cairui, Ossú, Ossoroa e Venilale. Os arraiais governamentais eram comandados por um alferes e um sargento e marchavam ostentando a bandeira real portuguesa. 

A 31 de Janeiro libertam as zonas circundantes da Missão de Soibada. A 4 e 5 de Fevereiro esses arrais fizeram tal chacina, que segundo um cronista, o massacre dos rebeldes dava para encher um rio.

Por outro lado, na zona de Ermera, na povoação de Umboe, o comandante de Hatolia, António de Almeida Valente conseguiu dominar uma revolta que eclodiu naquela zona matando 66 rebeldes. Almeida Valente recebe ordens do governador para marchar com todas as suas forças sobre Aileu. Parte para Aileu a 29 de Janeiro mas antes disso, reforça a defesa de Ermera, Hatolia e Atsabe com guarnições que reuniam mais de 340 moradores.

Nos princípios do mês de Fevereiro de 1912, o governo reuniu em Aileu oito oficiais, 51 soldados da 1ª linha, 14 voluntários, 364 moradores e 2070 timorenses (irregulares). Provavelmente a 1 ou 2 de Fevereiro, as forças governamentais marcharam m sobre Lelai e no dia 3 fizeram escalada em Rai-Rema. Resultados Dos combates travados entre os “revoltosos e forças leais ao governo: Da parte dos timorenses revoltoso, registaram-se 360 mortos e 320 feridos, Da parte do governo, houve 24 mortos e 33 feridos.

Porto, 4 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo


 A GUERRA DE MANUFAHI – SEGUNDA FASE

Prevendo o avanço das forças governamentais e as movimentações dos arraiais de moradores da 2ª linha que iam chegando à região de Manufhai, Dom Boaventura manda os seus homens controlar os todos os acessos ao monte Cablac e às colinas de Riac e Leo-Laco. Nesse sentido os timorenses em rebelião armados de catanas, diman e algumas espingardas estabelecem postos de vigia nos altos dos montes e colinas, nas encruzilhas dos caminhos, e ao longo de regatos e rios. No alto das serras os “revoltoso” tinham amontoado pedras e pedregulhos para lançarem sobre os malaes e seus aliados quando avançassem por aqueles carreiros. Foi assim que as tropas governamentais tiveram algumas baixas e o próprio governador Filomeno da Câmara ficou ferido chegando ao ponto de ser capturado na zona de Aituto. Num dos recontros os manufaistas apoderaram de um canhão das forças governamentais.

Nesse início de guerra os nativos conheciam os recônditos das localidades: grutas, buracos, precipícios, ravinas, curvas e contra-curvas. Ao divisarem a aproximação do inimigo, utilizavam códigos para se comunicarem com outros: Essa comunicação consistia nos assobios, sopro de chifres do búfalo e através de fogueiras. Por outro lado os male muitn e seus aliados avançavam com dificuldade no terreno. Os meses de Janeiro, Fevereiro e Março eram a época de chuvas. Havia enxurradas e deslizes de terra; nevoeiro na zona de Cablac era intenso e o frio arrepiante. A viagem tinha de ser feita a pé ou de cavalo. Na altura ainda não havia carros de combate, nem camiões ou unimogues.

O Governador sabia que não era fácil chegar a Same para repor a soberania e ordem e prender o régulo de Manufahi. Por isso, além de ordenar o alistamento de moradores de todo o território, pediu ajuda ao Governo de Lisboa e de Macau.

Como resultado dessa diligência, no dia 6 de Fevereiro chega a Díli a canhoeira Pátria sob o comando do tenente Jaime Inso. No dia 11 do mesmo mês desembarcou em Díli a Companhia Europeia da Índia que transportada a bordo do navio inglês St. Albans. A força consistia em três oficiais e 75 soldados, dos quais 35 eram europeus, sendo o restante contingente composto por jovens mestiços da índia e goeses. Estes soldados indianos foram expedidos no dia 13 para Manatuto, onde o capitão José R. Fuare de Rosa os constitui em coluna com 66 moradores e 647 homens dos arraiais de Vemasse (450) Laleia e Cairui. Os moradores, de Baucau comandados pelo Liurai Freitas de Vemasse já tinham avançado para Bibuçuço nos meados de Janeiro.

No dia 15, chegava a 8ª Companhia Indígena de Moçambique (malae metan) que desembarcou do navio inglês Aldehanam. Era comandante desta Companhia Capitão Jaime Ramalho. O governador destinou 50 homens para Suro.  

Com este reforço, a 22 de Fevereiro de 1912, as forças portuguesas eram assim constituídas:

1. Quartel General: 13 oficiais, 34 soldados, 375 moradores e 2.300 auxiliares;

2. Contingente da Zona leste, com a sede em Manatuto: 5 oficiais, 67 soldados, 2 voluntários, 41 moradores e 1.800 auxiliares.

3. Contingente da Fronteira: na zona de Batugadé e Balibó. Um oficial, 14 soldados e 11 moradores. Estas forças atacaram Atsabe desde o dia 18 de Fevereiro até 21 de Março.

4. Contingente de Oeste: incluía as zonas de Bobonaro e Hatolia. O contingente era formado por dois oficiais, 66 soldados, 368 moradores e 2.000 auxiliares. Nessa zona lutou-se ferozmente.

5. Dispositivo de Díli: a canhoeira Pátria, um oficial, 50 moçambicanos e um número indeterminado de moradores.

6. Dispositivo de Ermera: moradores locais e voluntários de Baucau e Manatuto.

No dia 22 de Fevereiro Filomeno da Câmara à frente de dispositivo de Quartel-general estabelece o acampamento em Maubisse. Projectava-se o avanço para sul, em direcção a Cablac e Same. Na zona oriental, com o avanço das forças governamentais algumas povoações que tinham aderido à revolta foram-se submetendo às autoridades: Turiscai, Bibuçuço, Alas, Dotic.

Porto, 5 de Janeiro de 2012.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo

Thursday, 5 January 2012

A GUERRA DE MANUFAHI (1911-1912)

Author Dom Carlos Filipe Ximenes Belo 
                       
Neste mês de Dezembro de 2011, completam-se os cem anos do início do conflito de Manufahi. O começo da guerra de Manfahi teve a sua origem na morte do comandante de Same tenente Luiz Álvares da Silva e de europeus (três militares e um civil) dentro da tranqueira de Same e do comandante e Faturberliu.
                       
Como é que tudo começou?

Em Dezembro de 1911, era comandante militar de Same o tenente Luiz Álvares da Silva; e era régulo (Liurai) de Manufai Dom Boaventura da Costa.

Conta-se que havia vários dias que Dom Boaventura não aparecia no Comando apesar de várias vezes ter sido convocado pelo tenente Silva. Dias antes, o comandante até mandara à casa do liurai (na localidade de Bandeira,) um soldado português, velho no Comando, amigo pessoal e compadre de Dom Boaventura. Esse soldado foi retido e depois assassinado.
           
Na manhã do dia 24 de Dezembro de 1911, véspera de Natal, o tenente Luís estava na sua residência e acabava de tomar banho. Apareceram no comando uns homens mandados por Dom Boaventura da Costa. Um ia amarrado e outros seguiam-no. Davam a entender que iam apresentar uma queixa ao comandante. O Tenente ao ver aquilo saiu para ouvir a queixa do que ia amarrado. Mas, de repente caíram golpes de catanadas sobre o comandante. Este tentou reagir correndo para dentro em busca da uma arma. Mas, tudo foi inútil. Os homens perseguem-no e cortam-lhe cabeça. A esposa do tente Silva estava dentro da casa com o filho ainda bebe. Os homens arrastam-na para fora e colocam no regaço a cabeça do marido. No interior da residência os timorenses reúnem os móveis sobre os quais colocam o cadáver do tenente Luís Silva. Entretanto mais três portugueses são mortos: dois soldados e um civil.

O irmão do régulo telefona ao Comandante de Fatuberliu Ferreira: “Diz o senhor comandante que, sendo amanhã Natal, o convida vir a Same, passar as festas como seu hóspede”. O comandante parte para Same no dia 25, mas foi morto perto da ribeira Sui.

Entretanto, Dom Boaventrua manda um guarda-fio acompanhar a mulher do malogrado tenente para Maubisse.

A notícia do assalto ao Comando de Same e a morte dos seis portugueses espalha-se pelas aldeias de Same. E de Maubisse, os ecos dos trágicos acontecimentos chegam a Dili.

Em resposta aos actos de rebelião, o governador Filomeno da Câmara mobilizou soldados, moradores e auxiliares que atacaram os redutos dos “revoltosos” desde Janeiro de 1912 até Outubro do mesmo ano. O resultado dessa campanha foi a prisão de Dom Boaventura e a sua consequente destituição no dia 26 de Outubro de 1912.
Os motivos remotos desta acção:

a) - Motivos nacionalistas: expulsar os portugueses de Timor. “Timor era para os Timorenses”. Rebeliões de 1895. Desde os tempos de Dom Duarte, pai de Dom Boaventura que os povos de Manufahi estavam rebelados contra os Portugueses. A forçada pacificação foi levada a cabo pelo governador José Celestino da Silva.
Desde tempos recuados que alguns reinos não aceitavam o domínio dos “malae muitin.” Basta recordar o pacto de 1719, cujo actor principal era o régulo de Camanasa, e a consequente guerra de Cailaco (1725-1726).

b) - Motivos políticos: A 5 de Outubro de 1910, deu-se a implantação do regime republicano em Lisboa. Os régulos timorenses que sempre juraram fidelidade ao rei de Portugal, não aceitaram a mudança do regime e a troca de bandeira. A bandeira real (azul e branca) pela nova bandeira (verde-rubra).Alguns liurais temiam que com o nome regime eles fossem destituídos e perdessem as regalias.

Diz-se que quando em Outubro 1910, os régulos foram a Díli para assistir à cerimónia da implantação da República, já havia um pacto para uma possível revolta. E que esses régulos eram incitados por timorenses assimilados ou civilizados, entre os quais se contava um mestiço chamado Domingos de Sena Barreto que era filho de um goês e de uma chinesa; e incitados por europeus ligados à loja maçónica de Díli e que estavam descontentes com o Governador.

Da parte das autoridades portugueses, forjou-se outro motivo: a implicação dos holandeses que eram monárquicos e que queriam também expulsar os portugueses de Timor, para poderem dominar toda a ilha.

c) - Motivos económicos:
As rebeliões que ocorreram em Timor, nos reinos das Províncias do Bellos e de Servião, tiveram a sua origem principal na cobrança de impostos.
Parecia que em 1911 o governo ia aumentar os impostos. A capitação deveria passar de uma pataca para duas patacas. O corte de uma árvore de sândalo seria taxado de duas patacas. Os coqueiros e os gados seriam recenseados. Seria estabelecido um imposto de 5 patacas aplicado sobre os animais abatidos por ocasião das cerimónias (enterros, construção de uma lulic e realização de estilos).

Foram estes os principais motivos de descontentamento por parte dos régulos que depois se uniram em guerra contra as autoridades.

Para o governo português e para muitos timorenses, o Natal de 1911 foi um Natal triste!

Porto, 22 de Dezembro de 2011.
Dom Carlos Filipe Ximenes Belo